LIÇÃO SANGRENTA – 02 DE 02 – FINAL


Eram guiados por aquela mulher alta que mordia e puxava as tranças para não gritar de dor. Tinha a pele branca e o coração generoso. Mas era um homem ou uma mulher?

O curandeiro, que se esforçava por extrair a bala, tinha 50 anos e há quarenta que tratava dos combatentes. Fabricava medicamentos e sabia curar as feridas. Toda a espécie de feridas.

Seria ele ou esse desejo ardente de viver que curava as feridas? Seria a mão do curandeiro ou o desejo de vingança e a sede de liberdade que restabelecia os homens?

Ele pensava as feridas, rasgava camisas velhas e com elas fazia ligaduras para estancar as hemorragias. Sabia extrair as balas embebidas na carne por meio de uma pinça aquecida ao rubro. Contudo, nunca pegara numa espingarda e isso pela boa razão de que era o curandeiro. Toda a gente o conhecia como tal.

Tinha cinquenta anos e nenhum estrangeiro lhe chamara ainda “bace” (nome que se dá aos que têm um mérito especial, unanimemente reconhecido), enquanto que todos os combatentes do destacamento chamavam por esse nome a doente que mordia as tranças, que era ainda jovem e que além disso era uma mulher. Estas ideias atravessavam

o espírito do curandeiro enquanto suava suor e sangue.

A mulher tinha a carne rija e aquela carne disputava a bala à pinça do curandeiro. Dir-se-ia que era gulosa por chumbo e pólvora, como se ela própria se tivesse tornado chumbo e pólvora.

Enquanto Sadri pensava nos sofrimentos daquela mulher, o curandeiro continuava torturado pela dúvida.

“Não é uma mulher”, dizia para si próprio. “Tem tranças compridas como usavam antigamente os nossos avós. Não pode ser uma mulher.”

Tinha iniciado o seu ofício de curandeiro com a idade de dez anos mas nunca vira uma mulher assim. Nenhuma poderia suportar tais dores. Como poderia aquela ser uma mulher? Lembrou-se então da história que o pai lhe havia contado a respeito de um combatente que tinha sete ferimentos. Não gemia, não se debatia na cama, apertava os punhos ao ponto de fazer esta- Jar os ossos enquanto as lágrimas lhe corriam silenciosamente pela cara.

– Era um verdadeiro homem, dissera-lhe o pai. Era inútil amarrá-lo, estava ali, quieto e não gritava. Pensa neste exemplo, meu filho, dele poderás tirar ensinamentos. O pai era médico e fixara-se ainda jovem naquela região. Quanto a ele, não pudera estudar porque não havia escolas para isso. Tornou-se portanto curandeiro. Até aquele momento nunca ouvira falar de ninguém mais forte a suportar a dor do que o homem evocado pelo pai, mas agora era obrigado a admitir que aquela mulher suportava muito mais que ele.

A mulher abriu os olhos e viu o rosto do curandeiro debruçado sobre a ferida.

– Deves tirar a bala, disse ela outra vez. É difícil combater a arrastar a perna. As crianças esperam-me e, além disso, a guerra não espera.

Mas ele não conseguia extraí-la. Esforçava-se o mais que podia mas nada conseguia. A bala parecia enterrar-se na carne ainda mais profundamente.

“Uma mulher”, disse o curandeiro para consigo, “ouvi dizer que uma mulher em qualquer sítio da França se pôs à frente do seu povo e combateu como um homem, mas os feudais mandaram-na queimar. Diziam que era uma feiticeira e morreu como o meu pai me contou”.

A ferida agitou-se um pouco e abafou com dificuldade um gemido.

Sadri tocou no ombro do curandeiro com a espingarda.

– Não temos tempo a perder, disse. Os estrangeiros vêm cá amanhã. Temos de partir ao amanhecer.

– Faz o teu trabalho, curandeiro, gritou Neki. Faz o teu trabalho e tira a bala. Já a torturaste bastante.

O curandeiro de novo se debruçou sobre a chaga, com a pinça na mão.

“Pelo menos não vai morrer?” perguntava o curandeiro a si próprio.

“Vai morrer”, pensou ele. “A bala não quer sair porque é uma mulher que se atreveu a tornar-se homem. O tempo está contra ela.”

O curandeiro atirou com a pinça e pousou no punho o queixo inundado de suor. Olhou para o berço que baloiçava ainda, rolando os olhos como um pássaro assustado, branco como um lençol.

“No fundo, pensava ele com compaixão e com medo, bastava-lhe ter ficado em casa a embalar o berço.”

– Não consigo tirá-la, disse em voz alta.

Os homens olharam-no enraivecidos. A ferida voltou a sentar-se e tirou o revólver de calibre grosso de baixo da almofada. A arma parecia pesar-lhe na mão.

Os homens calaram-se, preocupados.

“Ela tem razão”, pensou Sadri, “ele torturou-a durante horas para nada conseguir”.

Os olhos de Neki brilhavam de ódio.

– Este maldito homem não tem piedade, parecia dizer o seu rosto magro. Carrega no gatilho e acaba com este canalha!

O curandeiro, com a cara banhada em suor, não pensava no seu fim. Durante quarenta anos tratara das pessoas com as mesmas pomadas e unguentos por ele fabricados e curara-as todas. Por que razão o haviam de matar agora? Tratava de toda a gente, albaneses ou não, e encontrava-se entre as duas partes, vivendo ora das chagas de uns, ora das chagas dos outros.

Era um emigrado, foi talvez a primeira vez que se arrependeu disso e que maldisse os pais por se terem ido fixar naquela terra.

A mulher segurava a arma na mão e o curandeiro sabia que ela nunca falhava o alvo.

– Tens cinquenta anos, se não me engano, disse a doente ao curandeiro.

– Cinquenta anos, “bace”, disse o curandeiro estremecendo e pronunciando a palavra “bace” contra sua vontade.

– Cinquenta anos é muito e é pouco, disse a mulher, para ti é muito pouco.

– É pouco, disse ele a medo. Quero viver.

– E não aprendeste nada, acrescentou a mulher.

Os homens calavam-se, apenas a mulher falava com voz calma e tranquila e aquela calma parecia abafar o curandeiro.

– Quanto a nós, muito cedo aprendemos uma coisa, continuou a ferida. Aprendemo-la quando ainda estávamos no berço: a bala chama a bala, curandeiro.

“Que me vai ela fazer?” perguntava ele a si próprio. “Matar-me-á como a um simples coelho? Serei morto por uma mulher?”

Todos estavam mudos. A mulher fez um gesto como se quisesse coçar a perna com o revólver.

– Olha, disse ela dirigindo-se ao curandeiro.

Este virou a cabeça, a medo, e viu com espanto que ela tinha colocado o cano da arma sobre a ferida.

– Olha, disse ela mais uma vez. A bala chama a bala!

Carregou no gatilho, ouviu-se uma detonação abafada e o curandeiro julgou que estava morto.

As balas deslizaram sobre a barriga da perna. Dir-se-ia que se tinham reconhecido e caíram ambas no mesmo buraco do assoalho.

O curandeiro piscou os olhos, os dois homens armados pareciam pregados ao chão.

– Acabou-se, disse ela. Pensa-me a ferida, temos um longo caminho a percorrer.

                                                                        * * *

 Nessa manhã, cinco pés caminhavam sobre o empedrado da ruela estreita da aldeia. Uma mulher apoiava-se sobre os ombros sólidos de dois homens de porte imponente e andava sem se queixar. Tinha passado os braços sobre os ombros de dois dos seus camaradas, dois irmãos de cabelos loiros como o trigo do campo que atravessavam.

Por Faik Ballanca

LIÇÃO SANGRENTA – 01 DE 02


O sol declinava num céu esbraseado. Marchavam a passo certo na rua estreita da aldeia. Apenas cinco pés assentavam no chão. A mulher que tinha posto a espingarda a tiracolo, com o cano virado para baixo, trazia calças de montanhês e apoiava-se sobre os ombros sólidos de dois homens de alta estatura.

– Por aqui, disse Sadri atravessando um campo.

– Mais um pouco de paciência, disse um deles com simpatia, estamos quase a chegar.

Retomaram a marcha sustendo a mulher que sofria sem se queixar.

A bala penetrara na barriga da perna e não tinham conseguido extraí-la. Levavam-na agora para um local seguro onde a poderiam tratar sossegadamente.

Na casa que se encontrava na extremidade da aldeia, estenderam suavemente a mulher em cima de um cobertor que a mãe de Sadri tinha trazido. Todos a observaram durante bastante tempo.

– Estás melhor? perguntou um deles.

A mulher baixou a cabeça dando a entender que o ferimento continuava a fazê-la sofrer, mas não disse uma palavra.

– Vou chamar o curandeiro Ahmet, disse Sadri. Havemos de conseguir extrair o projétil.

Enquanto saía, o outro homem, que se chamava Neki, pegou na espingarda e começou a montar a guarda.

– Dá-me de beber, disse a ferida em voz alta. Sentou-se e tirou o grande revólver que trazia no bolso. Era um revólver de calibre grosso, que parecia pesar nas mãos de uma mulher, uma relíquia de ferro, do marido que tinha sido morto.

Pegou no copo de água e entornou uma parte em cima da ferida, com o resto refrescou a cara e escondeu o revólver debaixo da almofada, Aquela arma recordava-lhe o marido, por isso a tinha sempre ao alcance da mão.

Quando o curandeiro entrou no quarto, quis -se levantar, mas Sadri impediu-a de o fazer.

– Não irrites a ferida, disse ele. Ainda temos uma boa porção de caminho a percorrer e não há cavalos. Os camponeses não podem ajudar-nos. Na aldeia não há homens

nem cavalos. O inimigo levou tudo.

A mulher deitou-se outra vez de costas e pôs-se a observar um berço pendurado no tecto por uma corda. Nunca embalara um berço e, contudo, tinha nove filhos. Eram nove órfãos cujos pais haviam sido mortos em combate. Era a eles que dava a sua ternura maternal.

Queria curar-se e voltar a combater. Não chorava de dor, não sabia chorar porque tinha o peito grande e tranquilo como o peito de uma mãe que dá vida.

A paciência desta mulher espantava o curandeiro.

Neki balançava nervosamente o berço. Sadri percorria o quarto em todos os sentidos, a velha tinha os olhos cheios de lágrimas.

– Xherah (1), disse a mulher, acaba depressa o teu trabalho.

Este curvou-se sobre ela e, com uma pinça de ferro aquecida ao rubro, tentou retirar o projéctil. O cheiro sufocante da carne queimada invadiu o quarto. A mulher pensava nos pequenos órfãos.

Neki continuava a balançar o berço. Era um berço vazio, como dezenas e centenas de outros berços de Kosovo. Porque as crianças já não ficavam nos berços e as mães já não tinham tempo de as criar.

O curandeiro esforçava-se o mais possível mas não conseguia esconder o seu espanto.

“Esta mulher, pensava ele, não pode ser uma mulher. É mais corajosa a suportar a dor do que um homem. Deve haver qualquer coisa escondida por trás daqueles compridos cabelos negros.”

Teria dado tudo para tirar aquilo a limpo. Aquele mau pensamento torturava-o tanto como a pinça torturava a mulher.

“Ela vestiu-se assim para não ser reconhecida”, pensava ele.

Todos conheciam aquela mulher. Todos sabiam que era ela o chefe daquele destacamento, mas muitos pensavam que o espírito do marido revivia nela. Era essa de resto a opinião do curandeiro.

Durante anos, guiara valentemente aqueles homens e ninguém sabia então que o marido tinha morrido. Os homens partiam ao assalto gritando o nome do marido e aquela mulher não disse uma só vez que estava cansada de combater.

O nome do marido semeava o pânico por entre o inimigo, mas era a mulher que lutava, que guiava os homens no combate e que criava os filhos dos que tombavam na luta.

– Puxa a trança, disse o curandeiro. Puxa com força para não sentires a dor. Tem paciência.

Ela, entretanto, recordava-se de como tinha sepultado o cadáver do marido dentro de um poço natural, enterrando-o profundamente para que o inimigo nunca pudesse encontrá-lo. Para que o inimigo vivesse sempre no temor do seu nome.

– Se tens força, dissera-lhe ele, combate.

E ela combatia ainda e talvez melhor do que o seu homem.

– Tira essa bala maldita, gemeu a ferida.

– Puxa a trança, disse o curandeiro banhado em suor, puxa com força.

E admirava-se ao ver que aqueles cabelos não ficavam nas mãos da mulher.

“Será realmente uma mulher?”, pensava ele. “Neste caso, todos os qualificativos já nada representariam visto que a mulher seria mais forte que o homem.”

Neki continuava a balançar o berço, com os olhos fixos na ferida. Ninguém sabia atirar com a precisão desta mulher. O marido, cuja pontaria era famosa em toda a região, nunca se media com ela.

“Livra-te de me desafiar, dizia ele à mulher, serias capaz de me ridicularizar. Mas ela media-se com todos e ganhava.

Neki vira-a uma vez acender com uma bala um cigarro que alguém tinha posto em cima de um rochedo.

Há anos que ela comandava um destacamento de homens aguerridos e corajosos.

Neki continuava a balançar o berço vazio pendurado do tecto.

Aqueles homens reuniam-se à noite e partiam ao ataque. Lutavam contra os estrangeiros pelos seus lares e pela sua honra e era aquela mulher que os guiava no combate.

E não se queixava..

Por Faik Ballanca

PÁGINA 102


Mágoa horrenda, ânsia horrenda, ciúme horrendo
Esta mísera página continha,
E Ela, por lê-la, dos seus olhos vinha,
Vinha um fio de lágrimas descendo…

Esta os seus olhos que choravam lendo,
Mais do que as outras páginas detinha,
E àquele pranto pela angústia minha
Iam-me os versos desaparecendo…

A sua última lágrima desfê-los…
Hoje estes mesmos pobres versos choram
O lugar dos antigos ocupando,

E estes, como os primeiros, que os seus belos,
Seus tristes olhos apagando foram,
Vão-se-me agora aos poucos apagando.

Por Pedro Rabelo

A JÚLIA


No teu olhar, cheio da luz chorosa
Que envolve o Espaço quando a tarde expira,
Bóia uma doce mágoa lacrimosa,
Uma saudade indefinida gira.
E quando afirmes que não tem começo
A dor sem fim que no teu seio existe
Queres assim, eu muito bem conheço,
Fazer-me crer que já nasceste triste.
E falas a sorrir: “Essa dolente
Tristeza amarga que me empana o olhar
É a vaga chorando eternamente
Por não poder se separar do mar…

E se te fito a umedecida boca
E vejo rubro o lábio que sorri,
Logo pergunto, num cismar de louca,
À mente e ao coração, se és tu quem ri.
Pois é tão mansa a chama destes olhos
Envoltos na carícia do sorriso,
Que eu penso que teus cílios são abrolhos,
Abrolhos rodeando um paraíso…

Por Auta de Souza

ADORMECIDA


Silêncio…apenas o silêncio a envolvia, a garganta obstruída pelas verdades não ditas, os ouvidos latejavam palavras proferidas por alguém, a angústia de ver-se despida de suas defesas levava-a a assumir uma posição fetal, procurando abrigar-se em si mesma, protegendo-se do medo do despertar. Tanto medo disfarçado de ira, de um pseudo-afronte ao seu modo de agir. Sentia-se acuada, sem forças para  aceitar as próprias falhas e mudar…
Mudar? Mudar jamais, acostumara-se ao medo, o medo disfarçado de coragem que a impedia de retroceder, afinal era uma mulher independente, não precisava de ninguém…bastava-se em si mesma e por isso assumira o papel de mártir voluntário em prol de desculpar a si mesma por não lutar pela felicidade que despontava qual um bruxuleante raio de luz em meio à penumbra de sua vida cheia de rotinas, algumas necessárias, outras criadas como muralhas a defende-la do mundo lá fora.

Havia tentado sim, acostumar-se ao raio de luz que teimava em invadir seus aposentos…as partículas de poeira em suspensão, no entanto, a bailar pelo facho luminoso, a faziam temer…não se dava conta de que a poeira sempre estivera ali, que apenas o raio de luz a colocava à vista…sonhava com arco-íris coloridos, afinal arco-íris não mostram a poeira a ser sacudida das vestes sacerdotais, acumulada ao longo dos anos de luto da alma.
Tentara abrir as portas do seu mundo, mas ao abri-las, esqueceu-se de que quem vem de fora o vê de outra maneira, isento dos vícios arraigados, da complacência instituída como forma de proteção de quem privou-se por tanto tempo da liberdade de ser plena e de aceitar a chegada da felicidade.

 Quem chegar que se acostume ao ciclo vicioso! Afinal, que sabe ele dos meus sofrimentos? Foram tantos anos de luto recolhido na alma, tantos anos a me entregar, me sublimar em prol dos outros…deixai-me em meu mundo turvo.
Deitada, semi-consciente, luta contra si mesma, razão e emoção se confundem em um tal amálgama que já não é possível distinguir  a realidade da fantasia incrustada em sua alma. Mudança….palavra que desperta o medo que corrói sua alma…Mudar pra que meu Deus? A penumbra que a envolve é como um escudo, nem luz, nem trevas, apenas aquela zona de conforto, um deixar as coisas como estão…arriscar? Não arriscar jamais…a rotina instituirá é a sua segurança. A alma grita dentro do peito….LIBERTA-ME!…mas a mente temerosa a subjuga…não é a hora de pensares em liberdade…aquieta-te! Olha à tua volta, tens tantas promessas feitas em leitos de morte…não tens o direito de ser feliz! Tua missão é sofrer….cala-te alma ingrata! Deixa para ser feliz em outra vida…aceita os grilhões que te impuseste, os reais e os imaginários, não permitas que te soem aos ouvidos os cânticos da liberdade, afastai de ti a felicidade!

Parecia-lhe impossível conciliar a felicidade com as responsabilidades. Caminhou, é verdade, aos poucos deu um ou outro passo, mas a culpa a acomete, a cada grilhão rompido sente como se traísse a si mesma…a liberdade a assusta…liberdade para amar? O amor parece, em meio às brumas de sua mente um novo feitor a exigir-lhe mudanças…Encolhe-se em seu canto… recolhe-se, encarando a liberdade como um mal a ser evitado…sente o desejo…sente o amor lutando para escapar das malhas do medo inclemente…mas faltam forças para assumir a novidade, busca então em mil detalhes inertes os motivos para fugir de si mesma, da felicidade a seu alcance.
Então dorme a mulher, querendo um dia despertar, como num toque de mágica, sem medos. Ou, quem sabe, deseje não mais despertar, entregue a um sono eterno, a olhar de outro plano, aquilo que deixou para trás…sem lembrar-se no entanto, que lá também se cobrará o não ter sido feliz.

Por Jorge Linhaça

A LUZ QUE BRILHA


No escuro da saudade
Habita um triste pensamento
Que busca intensamente
Uma alegria antes perdida
Perdida…No tempo
Perdida…Nas folhas secas jogadas ao vento
Perdida…Nas belas tardes de outono.

São longas as jornadas
E na longa estradas
Os caminhos são tortuosos
Espinhos existem
Mesmo assim  meus pés insistem
Numa busca sem fim
Esconde de mim, no fundo de mim
A luz que eu procuro
Foges de mim

A alegria perdida ,antes contida
No perfume das flores
E hoje perdida no orvalhar
Da relva de toda manhã
Perdida nos raios de sol
escondidos da noite.
Atrás das estrelas
Na magia da lua…esconde de mim

Eu busco no centro do mundo
E bem lá no fundo
A luz brilha forte
Eu sigo feliz meu caminho
E chego a um ninho
De acalento e amor.

Flores aos montes
Belas fadas encantam
Um mundo perdido
Atravesso campos emborboletados
Vaga-lumes piscando
E sinto que esta prestes a chegar
O que tanto anseio e vim procurar

Os pés cansados mas sempre no chão
Pensamentos voando
Seguindo sempre o coração
A luz que procuro …
A felicidade perdida
Um dia hei de achar..

A luz que brilha,vem chegando…

Por Romântica Apaixonada

MÃE NATUREZA, NA CHUVA ENCONTREI TEU FILHO AMADO


Elevo meu pensamento o mais alto que posso alcançar… Crio Asas…
Sopro no vento a minha saudação… Suave beijo entrego à natureza; ao abrir de meus braços ecoa o cantar silencioso de meu coração.
Crio Asas, posso voar, mas prefiro contemplar do chão toda a grandeza do céu. São tantas nuvens, iluminadas pelo sol, parecem banhadas de ouro, solidas… Obra prima da perfeição.
Crio Asas, mas não quero voar, Não posso tão longe de sua alma ficar… Todas estas maravilhas, Mares, Rios, flores, borboletas, pássaros… Enfim a vida nesta esfera é o amor que refletia em teu doce olhar. Doce pequeno Príncipe da paz, Soberano do Rio sem fim.
As árvores sussurram sobre ti…“os olhos que contemplou a beleza, não sentem prazer na tristeza”Abraço a mãe natureza, e sinto seu amor, e ela se mostra linda mulher idosa, que mal pode caminhar, cabelos brancos como a neve, brilhantes feito a prata polida, rugas profundas, olhos azuis como os mares, cansados, mas transbordantes de amor.
Suas vestes trás a marca de cada povo, e seu sorriso é inocente como o sorrir de uma criança feliz.

-Filha, Porque tanta tristeza?

Sua voz era terna, tocou-me, era como se todos os pássaros cantassem sendo orquestrados pelo divino amor, fazendo o mundo inteiro ser coberto por compaixão.

– Não tinha a quem recorrer amada mãe, eis que corri a seu encontro…
Sorrindo a velhinha me estendeu a mão…

-Filha, vamos nos sentar embaixo de uma árvore…

Caminhei com Gaia em direção da arvore mais próxima, não pude deixar de reparar em seu perfume, era suave, e então, eu senti em meu ser o viço de todas as Flores.
Me sentei na grama, à sombra era fresca e convidativa, encantei-me ao ver as raízes da arvore furando o solo; entrelaçavam-se em um balé surreal, e assim formaram uma poltrona confortável Para que a amada mãe pudesse sentar-se.

Ela cruzou suas trêmulas mãos uma sobre a outra se inclinou em minha direção, olhou-me profundamente nos olhos, como quem espera a conclusão de uma historia.
Hesitei, por um momento pensei, Gaia sabe por que busquei seu espírito, ela podia com sua própria boca falar, mas ela queria ouvir o que eu tinha a dizer. Suspirei e então com contida emoção me dirigi a ela…

– Meu coração está aflito, pois queria ter noticias de um ser querido, mas ele está inacessível, não consigo achá-lo em parte alguma, ninguém sabe me dizer de seu paradeiro. E ele era tão intimo teu, um de teus melhores filhos.

Baixei minha cabeça, pois minhas falas pareciam absurdas, eu estava com a mãe Terra, Deveria ela ter assuntos mais importantes do que se preocupar com meus devaneios.
Depois de alguns minutos de silencio… Sua voz cristalina fez-me erguer a cabeça.

– Os pais às vezes chegam à idade avançada e necessitam ser carregado por seus filhos, necessitam da retribuição dos anos de amor dedicado, não por força da obrigação, mas por amor.
Existe um ditado belo ecoando no proclame de homens religiosos, que diz…
Aquele que honra pai e mãe, terá seus dias prolongados na Terra. E certa vez uma luz se fez presente em forma humana e disse…
deixem vir a mim os pequeninos, porque estes herdarão o paraíso, e ensinou aos meus filhos a serem inocentes como as crianças. E isso quer dizer, nunca deixar-se contaminar pela maldade, pelo egoísmo, pela crueldade.
-Gaia fez uma pausa de segundos, com ar de quem revelaria um segredo, continuou- Eu me mostro a ti como a velha e cansada mãe, que foi carregada nos braços de um filho, que mesmo homem, nunca deixou de ser criança.

Chorei, e Gaia me presenteou com a chuva… Paz era o que eu sentia, e minhas lágrimas eram as mais puras emoções humanas, que se mostravam em forma de gratidão e incondicional amor.

-Filha – continuou Mãe Gaia enquanto trovões ecoavam – Achas que eu o deixaria se perder?
Ou que teu irmão se perderia?
Ele está aqui – levantou as trêmulas mãos, pousando-as em seu peito- Em meu coração, de forma alguma é inacessível… Sorria minha Criança, saia da sombra da árvore, pode ir dançar na chuva!
Beijei suas mãos e ela linda idosa, descontraída e de forma carinhosa deu uma sonora risada, que me preencheu de felicidade…

-Ande vá, vá… Pois Amo vela girar de braços abertos enquanto chovo sobre ti…

Mais que de pressa corri, as águas molhavam meu corpo, e eu bailei, girei, girei, girei, cantei…
A Chuva tinha ritmo, som, magia… Dancei na chuva como nunca antes, e eu sei que não dancei sozinha!

Por Thoreserc Poeta