O VINGADOR NEGRO – JUSTIÇA TARDIA, MAS INFALÍVEL – CAP.22


No porão, o bandido estava apontando uma arma para a cabeça de Fitz e cochichou no ouvido deste ao ouvir o mascarado chamar…

– Se der um pio, te mando para o inferno.

Cinco minutos depois, fora da casa…

– Onde será que se meteu? Ei Alto lá! Como Jerry estava na minha frente, deve ter passado aqui e sequestrado Fitz para garantir sua fuga. Vou dar uma olhada nos rastros. Devem me dizer algo…

Mesmo examinando de forma minuciosa, O Vingador não achou nenhum rastro.

– Ele deve ter apagado seus rastros antes de eu chegar, mas sei que veio pra cá. Vou ter que atravessar o rio mesmo sem Fitz para ver se há algo do outro lado.

No porão do posto…

– Você acha que vai fugir? Por falar nisso, de quem está fugindo? – perguntou Fitz.

– Não é da sua conta.

Neste momento Fitz deu um empurrão forte em Jerry que bateu a cabeça em uma prateleira e ficou atordoado. Assim, quando o Vingador Negro estava já pegando o pequeno barco para atravessar o rio, o homem saiu correndo em sua direção oposta, mas o Vingador ouviu o som dos passos e viu também quando Jerry saiu atrás dele sem notar que o mascarado estava nas margens. Fitz correu para a floresta que cercava o posto. Jerry foi atrás…

– Desista Fitz, você não vai escapar vivo – disse o facínora.

Para evitar ser localizado e também por estar desarmado, Fitz se escondeu em uma depressão do terreno na floresta sem responder nada. O tempo passou e dez minutos depois…

– Levante-se! Desta vez você não escapa! – disse o bandido encostando o revolver no pescoço de Fitz.

O homem levantou. Você é danado, mas não é páreo para mim.

De repente, alguns passos à frente…

– Solte essa arma, Jerry. Acabou – disse um homem desarmado.

O bandido olhou para frente e não acreditou no que viu.

– Mas que diabos? Você é aquele janota que estava na cidade de San Antônio.

– Sim, meu nome é Gabriel da cidade de Austin. Peço que solte este homem. Ele tem um filho pequeno e precisa criá-lo.

– E porque eu faria isso? Ele é minha garantia de vida contra os que estão atrás de mim.

– Vamos fazer um acordo. Você me leva no lugar dele. Eu tenho posses e posso lhe dar dinheiro além de garantir sua vida.

– Hummm… muito interessante sua proposta, mas se deixa-lo ir ele me denunciará.

– Ele não fará isso se você o deixar amarrado no posto.

– Ok então passe logo pra cá antes que eu resolva a atirar em vocês dois.

– Os três homens caminharam até o posto e Jerry amarrou Fitz e D. Gabriel e seguiu seu caminho.

CONTINUA…

Por Alci Santos

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O VINGADOR NEGRO – JUSTIÇA TARDIA, MAS INFALÍVEL – CAP.21


Mais tarde…

– Que droga tem um desfiladeiro à frente. Se ele descobrir que estou no seu encalço ele poderá preparar uma armadilha para me encher de chumbo. Mas não tenho saída. Tenho que ficar com os olhos escancarados enquanto tiver passando por ele.

Durante quinze minutos, tudo correu bem para nosso herói até que um binóculo ameaçador achou no calor do desfiladeiro…

– Por mil tições! O mascarado me seguiu até aqui. Ele deve ser o que andam falando pelas cidades texanas. É o tal do Vingador Negro. Só pode ser. Mas como ele me achou? Se eu deixar ele me pegar irei para a forca com certeza. Mesmo ele passando no desfiladeiro, corro o risco de ele me pegar. Se algo der errado, ficarei cara a cara com ele e pelo que ouvi falar, ele é muito hábil com suas armas. Prefiro tentar outra coisa. Já sei o que farei. É perigoso também, mas assim estarei com mais chances de escapar.

Enquanto isso…

– Já passei boa parte do desfiladeiro. Se ele fosse me atacar, já teria feito. Acho que não está mais aqui. Deve ter ido para o pequeno posto de troca na margem do rio. Somente ali ele poderá atravessar e ficar bem próximo à fronteira. O velho Fits deve ter algo para dizer.

Mais tarde…

-Hummm está muito quieto isso aqui.

O Vingador Negro desceu até o posto e entrou na cabana cabreiramente.

– Fits você está aqui? – perguntou o mascarado.

O silêncio fez-se sentir de uma forma assustadora.

CONTINUA…

Por Alci Santos

O VINGADOR NEGRO – JUSTIÇA TARDIA, MAS INFALÍVEL – CAP.20


Os bandidos seguiram até uma cabana abandonada vinte quilômetros à frente…

– Vocês têm certeza que ninguém nos seguiu? – disse Mike bastante cabreiro.

– No início vi um mascarado atrás de nós. Nem precisei atirar, pois ele sumiu.

– Jerry você é um idiota. Ele pode estar lá fora à nossa espreita. Além de atirar no funcionário do banco, ainda não vigiou direito nossa retaguarda.

– Não adianta agora chorar sobre o leite derramado. Agora temos que nos livrar dele se não quisermos a forca – disse Paul.

Neste momento, de cima do telhado, o Vingador negro caiu em cima de dois facínoras que deram bastante trabalho, mas Jerry conseguiu fugir.

Cinco minutos depois, o Vingador negro saia e deixava os dois bandidos bem amarrados.

– Hummmm pelos rastros parece que foi para o sul. Com certeza está indo para Laredo que fica na fronteira com o México. Se isso acontecer, vai ficar mais difícil de captura-lo. Vou seguir os rastros rapidamente, mas antes, tenho que passar em San Antonio para avisar o xerife.

Neste momento, O Vingador Negro notou uma figura a cavalo bem longe.

– Tenho que tomar cuidado para não dar de cara com outro bandido do grupo, se houver.

O mascarado pegou o binóculo e viu que era uma pessoa conhecida.

– D. Alvarenga. Ele com certeza encontrará a casa, então vou seguir minha caça.

Mais tarde… dentro da casa…

– Eu não contava que viria atrás Xerife.

– D. Alvarenga, já vi que o senhor e o janota não me conhecem.

– Vejá só os dois cordeirinhos pegos pelo lobo.

– Xerife aqui tem um envelope com o seu nome. Disse o assistente de xerife.

O Xerife pegou o envelope e tirou um pedaço de papel escrito que havia dentro. D. Alvarenga espichou-se por trás do Xerife para ler, mas o mesmo notando tal movimento, deu dois passos à frente e virou-se para ele. Olhou o papel e disse:

– Hum esse mascarado é realmente interessante – disse o xerife virando-se e jogando o papel para trás.

Uma lufada de vento o levou até o rosto de D. Alvarenga.

– Hum… “Eis parte da mercadoria. Em breve apareço em San Antônio com o resto. Receba os cumprimentos do Vingador Negro”.

E dizendo isso, postou-se a rir.

CONTINUA…

Por Alci Santos

O VINGADOR NEGRO – JUSTIÇA TARDIA, MAS INFALÍVEL – CAP.19


D.Gabriel e D. Alvarenga resolveram em seguida fazer uma visita ao banco de San Antonio para reabastecer.

– Então você resolveu ficar por aqui mais um tempo?

– Sim D. Alvarenga se não for incômodo para o senhor.

– Mas o que é isso, D. Gabriel eu estava em vias de lhe pedir isso para ajudar-mos o pobre Tom.

– Então estamos combinados.

Continuaram seguindo até o banco, mas quando iam chegando viram um homem na frente do banco segurando na cela de um cavalo em um movimento suspeito. De repente um tiro ecoou dentro do banco.

– Droga. Um tiro – disse o homem.

Os populares já se agitaram todos

– Isso foi um tiro Jeff?

– Com certeza e parece ter vindo do banco.

Várias pessoas com curiosidade resolveram ver o que era e chagavam aos montes.

Dentro do banco…

– Putz você não devia ter atirado, agora a cidade toda cairá em cima de nós.

– Calado! Pegue o dinheiro e o fuzil. Se alguém chegar perto leva chumbo grosso.

Os dois homens correram para a porta deixando o corpo de um fucionário e outro desacordado. Quando saíram na rua…

– Vamos vocês dois que cada vez chega mais gente e jajá vão começar a atirar – disse o homem que esperava pelo lado de fora.

– Atire para cima para assustá-los.

Os homens começaram a atirar para cima mas o que tinha atirado no funcionário morto resolveu atirar nas pessoas.

Um dos que atiravam pra cima disseram:

– Seu idiota, agora mais do que nunca vão vir atrás de nós

– Cale a boca e chicoteie os cavalos.

Mais atrás

– D. Alvarenga vá avisar o Xerife que vou ver o que aconteceu dentro do banco – disse D. Gabriel.

– Certo – disse D. Alvarenga já se afastando.

Mas D. Gabriel sabia que já havia pessoas dentro do banco e correu para entrar em um pequeno beco. Cinco minutos depois saiu se esgueirando para tomar emprestado um cavalo e sair como um foguete atrás dos bandidos. Mas agora era o Vingador Negro!

CONTINUA…

Por Alci Santos

O VINGADOR NEGRO – JUSTIÇA TARDIA, MAS INFALÍVEL – CAP.18


D. Gabriel recebeu uma carta de um amigo de seu tio chamado D. Alvarenga para passar uns dias em San Antônio, cidade próxima a Austin. No dia em que D. Gabriel iria voltar a Austin…

– É isso, Don Gabriel o novo ajudante do Xerife irá tentar retirar a venda de  Tom Dove da rua principal.

– Mas D. Alvarenga o que a lei diz sobre isso?

– Diz que ele poderá vender as frutas se for do interesse da maioria das pessoas da cidade D. Gabriel. E é do interesse delas mas parece que o ajudante de Xerife quer fazer as suas próprias leis.

– Vamos lá falar com ele, talvez ele tire a barraca por hoje e possamos evitar problemas com o ajudante do Xerife – disse D. Gabriel já andando apressadamente.

No momento que se aproximavam da barraca, o ajudante de Xerife chegava pelo outro lado.

– O senhor é Tom Dove? – perguntou o ajudante do xerife

– Sim, sou eu, vai querer fazer compras vice-xerife? temos promoção de frutas hoje.

– Eis a compra que eu vou fazer – olhou para os dois homens que o acompanhavam e fez um gesto com a cabeça para eles derrubarem tudo.

Os homens derrubaram a barraca e ainda chutaram algumas frutas.

– Ei, mas que diabos deu no senhor? O senhor não é a lei?

– Muito bem, você mostra que está sabendo de tudo: EU SOU A LEI AQUI!

– Então porque fez isso?

– Porque a partir de hoje o senhor está proibido de armar essa barraca imunda aqui.

– Mas esse é meu trabalho. Quase toda a cidade compra frutas e legumes aqui.

– Se quer trabalhar então legaize seu serviço. Custa só dois mil dólares. Estarei na delegacia se estiver interessado.

De repente…

– Xerife um momento! O senhor não tem o direito de fazer isso.

– Ah, olá D. Alvarenga. O que que eu não tenho o direito de fazer? Me diga que eu lhe esclarecerei.

– Como pode vir aqui e derrubar desta forma a barraca de um cidadão honesto que está trabalhando?

– D. Alvarenga, apesar de isso não lhe dizer respeito, eu vou lhe explicar. A lei diz que se não está legalmente registrado, terá que fazer isso para trabalhar, mas parece que o senhor Tom precisava de ação para ver o que acontece com quem desrespeita a lei e eu fui até bom com ele que não o levei preso. Ai ele teria que pagar fiança de cinco mil dólares.

– Mas vejam só, o vice-xerife está querendo enriquecer as custas do povo?

Quando D. Gabriel proferiu esta frase, o parece que acendeu uma fogueira do tamanho de mil infernos em sua cabeça.

-Quem é você para falar isso para um oficial, senhor…?

– Eu me Chamo D. Gabriel e moro em Austin.

– Hum… parece que já ouvi falar de você. Você deve ser parente daquele fazendeiro que foi sequestrado.

Dom Gabriel não gostou da forma que fôra identificado e quis partir para cima, mas D. Alvarenga o conteve.

– Calma D. Gabriel, não vale a pena.

– Por enquanto vamos aceitar o que você está fazendo com a lei vice-xerife, mas só por enquanto – disse D. Gabriel.

E dizendo isso saiu acompanhado de D. Alvarenga e Tom.

CONTINUA…

Por Alci Santos

A BARGANHA


E o “turco”, desde muito cedo, andava pelos subúrbios a mercar aqueles coloridos registros de santos. Havia um são João Batista, com a sua tanga, o seu bordão de pastor e o seu inocente carneiro que olhava doce tudo o que via fora da estampa; havia um Cristo com o coração muito rubro à mostra, coroado de espinhos, e os olhos revirados para o Céu que naquele dia estava lindo, de um profundo azul-cobalto; havia uma Ceia em que Jesus presidia, mansueto e resignado, apesar de se saber traído, e havia muitos outros santos e santas que o “turco” levava, alguns enrolados, mas outros diante do seu peito arquejante das suas caminhadas de humilde bufarinheiro, daquelas modestas paragens da cidade.

E ele ia:

— Compra, sinhor! Muita bonita!

Das casas, às vezes, lá saía uma mulher ou outra, de cores as mais variadas, e indagava com desprezo:

— Olá! O que é que você leva aí?

Miguel José parava, aproximava-se da porteira e respondia:

— Santa, sinhora! Muita bonita!

— Que santos tem?

— Muitas, sinhora. Tuda bonita.

Desentolava os registros e a rapariga começava a examinar. De repente, à vista de uma daquelas oleogravuras, ela gritava:

— Leocádia! Leocádia!

Lá do interior da casa respondiam:

— Que é?

A outra acudia:

— Vem cá. Vem ver uma cousa.

Vinha uma outra rapariga e a que estava, recomendava, mostrando um dos quadros do “turco”:

— Vê só como é lindo este Menino Jesus.

A outra examinava e concordava. O “turco” se animava e perguntava:

— Não quer compra ele?

Uma delas ia ao encontro da pergunta do bufarinheiro:

— Quanto é?

— Barata, sinhora.

— Quanto?

— Dois mil-réis.

— Chi, meu Deus! É caro, muito mesmo.

O pobre ambulante não fazia negócio algum; e continuava com a sua carga sagrada a palmilhar aquelas ruas que são mais propriamente veredas.

Ainda se houvesse árvores, sombra que amaciasse aquela manhã quente, embora linda e cristalina, o seu ofício seria suportável; mas não as havia. Tudo era descampado e as ruas eram batidas pelo sol em chapa. Lá ia ele. As calças ficavam-lhe pelos tornozelos; o chapéu era de feltro, mas não se sabia se era preto, azul, cinzento. Tinha todas as cores próprias a chapéus dessa espécie. Em um pé calçava uma botina amarela; em outro, um sapato preto.

— Cumpra, sinhor! Coisa bonita de Deus! Cumpra.

Foi dizendo isto a um petulante crioulo, muito preto, de um preto fosco e desagradável, cabeleira grande, gordurosa, repartida ao alto, e o chapéu a dançar-lhe em cima dela; foi dizendo isto a ele que lhe ia acontecendo urna grande desgraça naquela manhã. O negro, ao ouvi-lo, chegou-se muito junto ao “turco” e indagou com um ar autoritário:

— Que é que você está dizendo?

O humilde armênio pensou logo que tratava com um soldado de polícia à paisana, pois lhe parecia que, na terra em que estava, todos os pretos são soldados e podem prender todos os armenos.

Com essa convicção, Miguel José respondeu cheio de respeito e acatamento:

— Dizia, sinhor: cumpra santo muita bonita.

O negro perfilou-se todo, tomou uns ares judiciais ou policiais, chegou o chapéu de palha para a testa e disse:

— Você parece que não é civilizado.

— Cumo, sinhor?

— Sim, você é herege, inimigo de Nosso Senhor.

— Não, sinhor.

O preto desarmou-se um pouco de seus ares judiciais ou policiais, tomou-se mais suave, quis fazer de penetrante e sagaz. Perguntou:

— Você come came de porco?

E Miguel José olhou as montanhas pedregosas que ele via lá, longe, esbatidas no azul profundo da manhã, ressaltando quase inteiramente na ambiência translúcida do dia, e lembrou-se da sua aldeia armênia, das suas cabras, das suas ovelhas, dos seus porcos.

A sua fisionomia dura contraiu-se um pouco e os seus olhos de carneiro quiseram chorar de recordação, de sofrimento, de mágoa. Ele se encheu todo de uma pesada tristeza; mas pôde responder:

— Sim, senhor, eu coma.

— Então você é cristão? insistiu o preto.

— Sim, sinhor; diga a sinhor sou cristão.

— Admira.

— Por quê, sinhor?

— Porque você diz “vender” “comprar” santos.

— Cuma se diz então?

— Troca-se. Aprenda — está ouvindo! É falta de respeito, é sacrilégio dizer comprar ou vender santos. Aprendeu?

— Sim, sinhor. Obrigada, sinhor.

E o crioulo se foi, deixando o pobre armênio arrasado por mais aquele déspota que passava sobre a sua pobre raça; mas mesmo assim, continuou na sua mercancia.

Lá se foi ele por aquelas ruas de tão caprichoso nivelamento que permite as carroças que por lá se arriscam andarem no ar com burros e tudo. Lá ia ele:

— Cumpra, sinhor! Muita bonita.

Subia, descia ladeiras; parava nas portas; mas não fazia negócio algum.

Num pequeno campo, encontrou uma porção de crianças a empinar papagaios. Parou um pouco para ver aquele divertimento interessante que as crianças da sua terra não conheciam. Veio um pequenote:

— Ó Zê! O que é que você leva aí?

— Santo, menina. Pede mamãe compra uma.

— Ora, esta! Lá em casa tem tanto santo — para que mais um? Vende ali, aos “bíblias”.

Miguel José percebeu bem a malícia da criança, pois de uma feita caíra na tolice de oferecer um registro a essa espécie de religiosos e se vira atrapalhado. Não que o tivessem maltratado, mas um deles, baixinho, com um pince-nez muito puro de vidros cristalinos, o levara para o interior da casa, lera-lhe uma porção de cousas de um livro e depois quisera que ele se ajoelhasse e abandonasse os registros. Noutra não cairia ele…

Continuou o caminho, mas estava cansado. Ansiava por uma sombra, onde repousasse um pouco. Havia muitas árvores, mas todas no interior das casas, nas chácaras, nos quintais ou nos jardins. Uma assim pública, na margem da rua, em terreno abandonado que o abrigasse aí, por uns dez minutos, ele não encontrava.

E seria tão bom descansar assim fazendo o seu minguado almoço, para continuar até à tarde a sua faina, vendo se ganhava pelo menos uns dez ou cinco tostões de comissão com a venda daquelas cousas sagradas.

E continuou o seu caminho, tendo sempre exposta diante do peito a imagem de Cristo, coroado de espinhos, a mostrar o coração muito rubro, com os seus misericordiosos olhos a procurar o Céu, naquela manhã muito linda, de um profundo azul-cobalto…

Afinal, achou uma mangueira, maltratada, cheia de ervas parasitas, a crescer na borda do cominho, num terreno desocupado. Sentou-se, tirou da algibeira um naco de pão dormido, uma cebola e pôs-se a comer, olhando as montanhas pedroucentas que assomavam ao longe e lhe faziam lembrar a terra natal. Ele não tinha nenhum nítido pensamento sobre a vida, a natureza e a sociedade…

Não tardou que se lhe viesse juntar um companheiro. Era também um “volante” como ele; mas a sua mercancia era outra, menos espiritual. Vendia sardinhas, de que trazia um cesto cheio. Era um português, cheio de saúde, de força, de audácia. Vinha suado, mais do que o armênio; entretanto, não dava mostras de ter ressentimentos nem do sol nem da dureza do seu ofício. O armênio olhou-o com inveja e pensou de si para si:

— Como é que esse homem pode ser alegre, pode ter esperanças?

O português, sem auxílio, arriou o grande cesto na sombra e sentou-se também cheio de confiança e desembaraço.

Foi logo dizendo:

— Bons dias, patrício.

Miguel José fez uma voz sumida:

— Bom dia, sinhor.

O português, sem mais aquela, observou:

— Qual senhor! Qual nada! Cá entre nós, é você pra baixo. Isto de senhor é lá pros doutores, não é para nós que andamos aqui aos tombos.

E emendou comunicativo:

— Que diabo — ó patrício! — que tu comes pra aí?

O “turco” disse-lhe e o Manuel da Silva considerou:

— Lá na minha terra, há quem goste disto; mas eu nunca me acostumei. Cebola pra mim, só na comida. Numa bacalhoada, ah!…

Miguel José continuava a mastigar sua cebola com pão, enquanto Manuel da Silva contava a féria. Contada que ela foi, disse bem alto:

— Pela hora que é, as cousas não vão mal. Até o meio-dia vendo tudo…

Guardou o dinheiro na bolsa que tinha a tiracolo e perguntou subitamente ao companheiro de acaso:

— Você já vendeu muito hoje, patrício?

— Nada, sinhor.

— Está você a dar com o tal de senhor! Pergunto se você já vendeu alguma cousa hoje, homem!

— Nada.

— O que é que você vende?

— Santo, sinhor.

— Santo?

— Sim; santo.

— Deixa ver isto, como é? fez o português curioso.

O armênio passou-lhe os registros coloridos e o vendedor de sardinhas pôs-se a olhá-los com espanto e deslumbramento artístico de aldeão simplório. Achou tudo aquilo bonito: aquele Jesus, mostrando o coração; são João, com o carneirinho; o Menino Jesus — tudo muito lindo aos seus olhos maravilhados de camponês cândido e enfeitiçado pelas cousas do senhor vigário.

Refletiu de si para si: “Cousas tão bonitas, se não as vendeu, é porque este ‘turco’ é mesmo burro. Comigo, já as tinha vendido, ganhado dinheiro e ficado com algumas, pra pôr lá no quarto”.

Veio-lhe uma idéia.

— Patrício! Você quer fazer um negócio?

Os olhos de carneiro do armênio luziram mais forte e com mais esperança.

— Qual é? perguntou ele.

— Tenho ali na cesta cerca de vinte mil-réis de sardinhas, vendidas a duas por um vintém. Se você vendê-las a vinte, ganha o dobro. Quer você trocar estes santos pelo cesto de sardinhas?

Miguel José rapidamente pesou os prós e contras da operação comercial. Sabia bem, por experiência própria, que a população, até as crianças, se mostrava refratária à mercadoria espiritual de que ele era portador; e, pelo que lhe vira ainda agora nas mãos, a do seu companheiro não se portava da mesma forma.

Em se tratando de sardinhas, as cousas não corriam da mesma maneira como no tocante a santos. Considerou bem e logo respondeu:

— Tá feita, sinhor.

Os dous se despediram e trocaram de carga. Miguel José voltou a passar pelos mesmos lugares em que oferecera os registros, sem nenhum resultado; mas, quando apregoou as sardinhas, não teve mãos a medir. Vendeu-as a vintém, então fez escambos de compensação e, de tal forma correram-lhe as cousas que, dentro de três horas, tinha vendido tudo, podia pagar os registros à loja e lucrava cinco mil e tanto.

Manuel da Silva, o alegre português das sardinhas, saiu muito ancho com os seus registros; mas não foi logo vendê-los.

A frugalidade do “turco” tinha-lhe dado uma fome extraordinária. Procurou uma casa de pasto e comeu a fartar, acompanhado de um bom martelo de verdasco.

Bem alimentado, satisfeito, dispôs-se a “trocar” o são João Batista, Menino Jesus, correndo a sua freguesia de peixes e crustáceos.

Batia as portas:

— Mamãe, dizia uma criança, está aí o seu Manuel.

A mãe perguntava lá de dentro:

— Ele traz camarão?

— Não, mamãe; quer vender santos.

— Para que deu agora, seu Manuel! Ora, vejam só! Vender santos. Diga a ele que não quero.

Dessa e de outra maneira, ele foi percorrendo em vão sua freguesia das sardinhas, sem mercar uma única estampa religiosa.

A sua alegria matinal se ia e todo o seu desgosto se voltava terrível contra ele mesmo. Não fora o “turco” que o embrulhara; fora ele mesmo que propusera aquele negócio. Era castigo. Ia tão bem com as sardinhas, para que fizera aquela barganha?

Andou até quase a noitinha e nada vendeu. Ao recolher-se, ainda quis ver as oleogravuras que o haviam deslumbrado.

Mirou uma, mirou outra e, olhando-as firmemente, refletiu:

— Se não fosse por faltar o respeito devido a Nosso Senhor Jesus Cristo, que ai está, eu havia de dizer que tudo isso são cousas do diabo que aquele “turco” me impingiu. Nunca mais! Tarrenego!

Por Lima Barreto