SOBREVIVENTES – CAP. 17


– Estiveram aqui agora pela manhã – afirmou Ricardo analisando o terreno.

Fábio olhou para o barranco e imaginou a cena.

– Devem ter caído pelo barranco – disse ele.

– É bem certo que sim, veja as marcas.

– Bom, então, ao menos estão vivos – aclamou Rodolfo, mais aliviado.

– Se andarmos rápido, vamos alcança-los antes do pôr do sol – declarou Ricardo.

– Ótimo! Vamos colocar o pé na estrada – incentivou Fábio.

***

– Essa decisão precisa ser bem analisada – dizia Eloísa ajeitando o óculos.

– Droga! Não viram aquele corpo na praia! – retrucou Wilson suando – Aquele é o sinal iminente que precisamos sair daqui.

– Olha, primeiro vamos esperar os outros voltarem e decidiremos por votação o que iremos fazer – sugeriu Amanda.

– Ela está certa – concordou Thais – Uma decisão unanime soa melh0r.

– Droga! Vocês ainda não entenderam o perigo que estamos correndo aqui?! – Wilson passou a mão no rosto.

– Entendemos – disse Amanda – E vamos correr o risco mesmo assim.

– Certo, se essa é a decisão final de vocês, então, aproveitem bem.

Dizendo isto, Wilson levantou-se, buscou uma bolsa com algumas coisas e saiu andando floresta adentro.

– Espere! O que está fazendo?! – indagou Thais correndo atrás dele.

Amanda também correu, porém, Eloísa permaneceu sentada observando.

– Aonde pensa que vai?! – perguntou Amanda, foi quase uma intimação.

– Eu não vou ficar pra morrer – respondeu Wilson – E também não sou babá de vocês. Já que querem tanto ficar, se virem.

– Você não pode fazer isto! – resmungou Thais.

– Quem vai me impedir? – Wilson voltou a andar deixando as duas para trás.

– Não! Não faça isso! Não nos deixe aqui! – gritava Thais em desespero.

– Esquece, não precisamos dele – retrucou Amanda.

– Como não precisamos?! Somos três mulheres sozinhas aqui!

– Fique despreocupada, se alguém aparecer, eu tenho isso – Amanda mostrou o revolver.

Thais olhou-a, engolindo a saliva.

***

Wellington e Nicolas realmente estavam perdidos. Aventurar-se floresta adentro não trouxe nenhum benefício, talvez uma fogueira tivesse sido uma ideia melhor.

– Ainda não acredito que eu estava delirando – falou Nicolas – Tudo parecia tão palpável.

– Você ainda não se esqueceu disto, é?

– Cara, eu estava lá. Foi real e pela primeira vez em tantos anos, tive medo – os olhos de Nicolas estavam distantes.

Wellington parou, cansado.

– Parece até que estamos andando em círculos.

Neste momento, um estalo soou. Nicolas e Wellington abaixaram-se em silêncio total. Infelizmente, em situações como essas tudo parecia ser alguma coisa.

– Será ele? – sussurrou Nicolas.

Os dois estavam atônitos, trêmulos.

– Nicolas! Wellington! Weverton!

Os gritos que soaram trouxeram alívio a eles. Eram vozes conhecidas. Nicolas e Wellington correram e finalmente depois de toda a confusão da noite passada, encontraram um porto seguro: eram Ricardo, Rodolfo e Fábio.

– Oh! Finalmente! – suspirou Fábio.

O mais estranho era perceber como a relação com aqueles estranhos havia se intensificado durante aqueles dias.

– E Weverton? – indagou Rodolfo, aliviado e preocupado.

– Está morto – declarou Wellington, aflito.

– O quê?! – Fábio arregalou os olhos.

– Peraí, explica a história desde o início, porque o Henrique voltou para a praia em estado de choque e até agora não contou nada!

– Aquele maldito voltou para lá?! – exclamou Nicolas, furioso.

– Mas por que toda essa raiva?! Quem me explicar o que foi que aconteceu?! – Ricardo falou autoritário.

– Henrique matou Weverton! – gritou Wellington, com lágrimas – Ele matou…

Todos se entreolharam.

CONTINUA…

Por Naôr Willians

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SOBREVIVENTES – CAP. 16


– Ei! Acho que encontrei uma pista! – exclamou Ricardo.

Fábio e Rodolfo correram ao encontro dele,

Ricardo estava abaixado ao lado de uma àrvore, apontando o dedo para uma mancha de sangue.

– Diabo! É sangue! – Rodolfo arregalou os olhos.

– Parece que Henrique e os outros passaram por maus bocados.

– Mas, pense bem – falou Fábio – Eram quatro contra alguém ou alguma coisa, não acha que no mínimo dois teria escapado.

Ricardo levantou-se.

– Depende de como eles reagiram na hora – explicou apontando para algumas trilhas de matos amassados – Ao que tudo indica, na hora do vamos ver, cada um correu para um lado.

– Então, qual delas nós vamos seguir? – questionou Rodolfo, apreensivo.

– Essa aqui – Ricardo apontou para esquerda – Parece que dois seguiram por aqui, nem devem ter percebido que estavam correndo juntos.

Rodolfo e Fábio olharam para a mancha de sangue, a intuição insistia em dizer que havia muito mais nessa história do que eles imaginavam.

***

– Pro inferno! Pro inferno, maldito! Você e sua guangue destruíram o transatlântico e nos trouxeram para cá!

Nicolas sentiu algo frio caindo em seu rosto. Era água. Abriu os olhos e pulou assustado.

– Acorda, cara! – era uma voz conhecida. Era a voz de Wellington.

O rapaz olhou para os lados atônito. Estava no meio da floresta, sujo, machucado e com uma terrível dor de cabeça. Poucos metros a sua frente, um barranco estendia-se ladeira acima.

– Escapamos? – perguntou Nicolas.

– De onde? – indagou Wellington sem entender.

– Do cativeiro onde o retalhador nos prendeu – declarou o rapaz.

– Que cativeiro? Ficou maluco?

– Nós estavámos presos num tipo de porão com correntes e tinha uma mulher morta na minha frente! Droga! Você estava desmaiado, mas, o Wéverton estava lá!

– Nicolas, acho que você bateu a cabeça muito forte. Nós estavámos fugindo ontem à noite e caímos barranco abaixo. Eu desmaiei e acordei agora com você gritando como doido – explicou Wellington limpando a roupa.

– Um sonho?… – Nicolas abaixou a cabeça – Não… Não! Não pode ter sido só um sonho! Era real!

– Isso acontece. Algumas pessoas quando passam por situações extremas acabam tendo alucinações e coisas do tipo. É só uma reação da sua mente tentando organizar seus pensamentos.

Nicolas permaneceu calado, olhando para o chão, como se tivesse sido transportado para outra dimensão.

– Não pode ser – sussurrou consigo mesmo – Aquilo era real…

***

Wilson acabara de sair da cabana de Henrique. Infelizmente, o quadro do jovem não mudara. Logo ao sair, enxergou Amanda chegando da floresta com algumas frutas.

– Acho que encontrei o suficiente para mais dois dias – disse ela satisfeita vindo de encontro ao policial com uma cesta improvisada.

– Estive pensando – declarou Wilson ajudando-a com a cesta – Estamos vulneráveis aqui.

Amanda encarou-o.

– O que está dizendo?

– Seja que for que atacou Henrique e os outros, pode vir atacar-nos também e aqui na praia não temos nenhuma chance de sobrevivência.

– Espera ai, está sugerindo que montemos acampamento na floresta?

– Pense bem, Amanda! Aqui é o lugar mais vulnerável dessa ilha! É apenas questão de tempo até essa pessoa que atacou os outros chegar aqui.

– Mas, indo para floresta estamos eliminando a chance do resgate nos encontrar! – lembrou Amanda.

– O que está acontecendo? – questionou Eloísa aproximando-se.

– Wilson quer sair da praia.

– Como é?

– Somos alvos facéis aqui.

Eloísa encarou os dois. Entretanto, neste momento, o grito de Thais soou pela praia inteira. Sem hesitar, todos correram na direção do som agudo. Encontraram Thais correndo em desespero.

– O que foi?! – questionou Wilson.

– Tem… tem um corpo! Um corpo bem ali!

– Fique com ela, Eloísa – pediu Wilson – Venha comigo, Amanda.

Os dois andaram alguns metros até que viram o corpo de um homem flutuando na água à beira do mar. Se aproximaram e puxaram-o para a areia.

– Conhece? – perguntou Wilson.

– Não – respondeu Amanda.

Neste instante, Wilson enxergou um corte profundo na garganta e vários furos no abdomen.

– Isso não é nada bom.

Amanda olhou-o, um pouco aflita.

– Esse cara não morreu afogado ou com a explosão do transatlântico, ele foi assassinado a facadas e foi recente… acredito que ocorreu tudo essa noite…

Os dois se entreolharam e engoliram a saliva.

CONTINUA…

Por Naôr Willians

SOBREVIVENTES – CAP. 15


– Tudo bem, pessoal – começou Wilson – Precisamos fazer um racionamento de comida e de água potável. Amanda, sabe como estamos de alimentos?

– Eu verifiquei ontem – explicou a moça – E as notícias não são boas. Temos água até o entardecer e comida até amanhã de manhã.

Todos ficaram chocados com a declaração.

– Droga! – resmungou Wilson – Olha, temos que economizar o máximo possível. Vamos fazer uma cota… cada um vai beber apenas trezentos ml de água por dia.

– Ficou maluco! – retrucou Eloísa – Ninguém consegue sobreviver assim!

– Escuta querida, você acha que estamos no quê? Num Reality Show?! – reclamou Amanda pousando as mãos na cintura.

– Abaixa o tom de voz… – Eloísa arrumou os óculos.

– Estou dizendo que precisamos economizar para durarmos até o resgate – explicou Wilson tentando apaziguar a situação.

– Ele tem razão, Elô – concordou Thais.

Eloísa suspirou, indignada.

– Está bem.

– E só faremos duas refeições por dia – até para Wilson era difícil dizer aquilo – Bem, conto com vocês.

***

Rodolfo achava que estavam perdidos. Já fazia uma meia-hora desde que haviam adentrado naquela floresta, e, no entanto, pareciam estar andando em círculos.

– Escuta Ricardo, tem certeza que sabe para onde estamos indo?

– É claro que sei! Verá agora como eu tenho conhecimentos sobre florestas!

Neste momento, todos pararam espantados, exceto Ricardo que exibia um sorriso convencido.

– O lugar onde encontramos aquela garota numa rede – declarou Fábio um pouco perplexo.

– Nossa! Que incrível! – exclamou Rodolfo – Era de noite e mesmo assim você conseguiu decorar o caminho.

– E agora? Qual o próximo passo? – indagou Fábio.

– Acredito que as mesmas pessoas ou a pessoa que colocou a garota na rede, também é a mesma que raptou Nicolas, Wéverton e Wellington – explicou Ricardo – Então, vamos procurar por vestígios, qualquer coisa que aponte para eles ou ele.

Fábio e Rodolfo balançaram a cabeça concordando. E a busca começou naquele perímetro. Aqui e ali. Esquerda e direita. Norte e sul.

Entretanto, um metro a frente, no alto da árvores, alguém observava-os.

***

Wéverton começou a acordar. Em sua cabeça soava um zumbido agoniante. Não se recordava de coisa alguma. Abriu os olhos pesados. Porém, a cena em sua frente não era nada receptiva. Uma mulher nua com as pernas e boca costurados e o crânio aberto.

– Argh!! – ele gritou percebendo enfim, as correntes em seus braços e pernas – Deus! Socorro, por favor! Por favor! – puxou as correntes em desespero.

– Não adianta – soou uma voz.

Wéverton notou Nicolas preso, assim como Wellington, que permanecia desacordado.

– O quê? – questionou – Que lugar é este? Onde estamos?

– Eu não sei.

– Pro inferno! Eu quero sair daqui!!

– Pode gritar o quanto quiser – retrucou Nicolas – Ninguém vai te escutar. Estamos numa ilha deserta, sozinhos. Ninguém vai nos escutar.

– Como é?! Quer que morramos aqui?! Eu não quero morrer aqui! Eu não nasci para isso!!

– E nasceu para o quê? Para roubar transatlânticos?!

Wéverton, de repente, ficou sério.

– Do que você está falando?

– Olhe para frente e entenderá.

Os olhos de Wéverton foram rápidos e se depararam com três aparelhos televisores. Entretanto, em cada um, passava uma história sobre ele, Wellington e Nicolas.

No televisor dedicado à ele, haviam imagens de Wéverton ao lado dos traficantes, prontos para assaltar o transatlântico Jersey.

CONTINUA…

Por Naôr Willians

SOBREVIVENTES – CAP. 14


Amanheceu rapidamente. Os sobreviventes acabaram caindo num sono profundo devido o cansaço e a quantidade de informações que haviam filtrado no dia anterior. Mantiveram turnos de vigilância durante a madrugada para se assegurar que ninguém adentraria no perímetro. O grande problema é que eles nem imaginavam que o perigo já instalara-se dentro…

– Como foi a noite? – questionou Ricardo se aproximando de Wilson.

O policial estava na beira da praia, deixando os pés serem molhados pelas pequenas ondas que atingiam a areia.

– Tudo muito tranquilo – respondeu Wilson suspirando.

– Precisamos acordar os outros e decidir quem ficará aqui e quem irá conosco para as buscas.

Wilson concordou balançando a cabeça. Limpou os pés e calçou os sapatos.

***

Marcelle Gonçalves não conseguia esquecer dos gritos de seu amigo no corredor. Socorro! Socorro! Tivera pesadelos horríveis sobre sangue, morte e gritos vindos direto do inferno. Por que aceitamos fazer aquilo? Lembrou-se da recompensa. Cinco bilhões. Os olhos de ambos brilharam naquele momento, o coração batendo mais do que deveria. Marcelle calculou com a quantia que tinha na poupança. Dez bilhões. Lambeu os beiços desejando cada nota passando por seus dedos. O dinheiro na poupança era o bastante para viver o resto dos seus dias e ainda deixar para os filhos. Mas, a sede é insaciável. A lembrança vaga do transatlântico Jersey surgiu coberta por uma névoa. Era tudo fácil, entrar, pegar e sair. Por acaso, Deus estaria cobrando o preço? Depois de todos aqueles anos, chegara a hora de pagar?

Lágrimas rolaram quentes pelo rosto da moça. Fazia anos desde a última vez que chorara. E muito mais, desde que chorara se arrependendo. Perdoe-me…

***

Todos estavam reunidos. Era um círculo de pessoas cansadas, abatidas e acima de tudo, preocupadas.

– Como o Henrique está? – perguntou Eloísa.

– Ainda dorme. Pessoal, eu quero apenas dois comigo para começar as buscas – declarou Ricardo.

– Eu irei – disse Fábio, logo de cara.

– Eu também – Rodolfo deu um passo a frente.

– Ótimo. Já vou dizendo que isso não é uma jornada de escoteiros, andaremos rápido para que antes do entardecer estejamos de volta – Ricardo voltou-se para os outros – Vocês, fiquem de olho no Henrique e naquela garota presa. Não se preocupem e procurem andar sempre armados com alguma coisa.

– Peraí – resmungou Thais – Isso aqui é o quê? The Walking Dead? Lost?

– Senhorita, digo isso para seu próprio bem, porque segundo aquela malandrinha ali – Ricardo apontou para Amanda – Tem um maníaco psicopata matando gente.

Thais suspirou inconformada.

– Não temos armas para todo mundo – salientou Eloísa.

– Eu encontrei alguns facões nos destroços. Use-os. Bem, estamos partindo. Ah! Se não voltarmos até o pôr-do-sol mude o local onde estamos acampando.

Cada um cumprimentou o outro e depois Ricardo, Fábio e Rodolfo partiram floresta adentro.

CONTINUA…

Por Naôr Willians

SOBREVIVENTES – CAP. 13


A lua olhava atentamente para as cabanas dos sobreviventes. Uma sombra moveu-se rápido entre as árvores das proximidades. Alguém estava chegando…
Os pés pareciam cautelosos. O rosto, um pouco cansado. Uma das mãos machucada e manchada de vermelho. Vermelho de sangue. A outra mão estava segurando firme um objeto. Um revolver. Os olhos, perturbados.
Um galho fez com que ele viesse a tropeçar, caindo desequilibradamente no chão.
E neste momento, Ricardo saltou cabana afora. Seus olhos foram rápidos e ele escondeu-se sem ser percebido pelo alguém.
Quando a pessoa passou pelo caçador, foi agarrada e o revolver voou de sua mão.
– Quem é você? – questionou Ricardo segurando o invasor com uma chave de braço.
– Calma! Calma! Sou eu, o Henrique! – exclamou em tom agressivo.
Ricardo soltou o jovem.
– Onde estão os outros?
Henrique olhou-o, contendo as lágrimas que rolavam.
– Os outros? Eles… eles… estão mortos – declarou caindo sobre os joelhos.
– O quê?! – indagou Ricardo desacreditando.
Wilson e Amanda apareceram.
– Ricardo, o que houve?
– Sim… sim… – continuou Henrique arregalando os olhos – Ele matou-os. Arrancou sua cabeça… seus olhos… e comeu-os…
– Droga! – resmungou Wilson – Ele está em estado de choque.
– Vamos levá-lo para dentro da minha cabana – comentou Amanda – Tenho alguns sedativos na minha bolsa. Isso vai ajudá-lo.
Ricardo e Wilson agarraram Henrique levando-o.
***
Nicolas abriu os olhos pesadamente. Sentiu uma dor de cabeça zumbindo em sua mente, como se estivesse de ressaca.
– Merda… onde será…?
Tentou mover os braços, mas então, percebeu as correntes prendendo seu corpo inteiro.
O lugar era escuro, iluminado por cinco pequenas velas.
O rapaz olhou para o lado e viu Wéverton e Wellington desmaiados. Á sua frente, uma mesa com ferramentas exóticas: uma faca, um alicate, uma chave de fenda, mais de um metro de arame farpado entre outras coisas do tipo.
– Wéverton! Wellington! Acordem! Acordem!
Não houve reação da parte dos dois.
Nicolas tentou retirar seu braço da corrente, porém, assim que o fez, um alçapão acima de sua cabeça abriu-se e um corpo foi jogada em cima da mesa.
– Meu Deus! Meu Deus! – gritou ele desesperado.
Era uma mulher. Nua. O crânio aberto. A boca costurada. As pernas presas a agulhas. E abaixo dos seios, havia uma mensagem.
– Vocês são os próximos – leu Nicolas quase engasgando.
Os olhos dele percorreram a sala inteira. Sem saída. Sem solução. E não tardaria para o retalhador voltar…

CONTINUA…

Por Naôr Willians

ILHA GRANDE – 2 DE 2 – FINAL


Passamos ainda alguns dias com o QG montado na Vila de Abraão, este povoado simpático, com PMs nem tão gentis assim. De lá é possível fazer várias caminhadas e conhecer lugares ótimos, como as praias da Enseada do Abraão, Enseada de Palmas e a maravilhosa Praia de Lopes Mendes, esta já voltada para o oceano, e point para surfistas e gatinhas. Partindo para a outra direção, pode-se ir para a Enseada da Estrela, passando pela Cachoeira da Feiticeira e chegando ao Saco do Céu. Este roteiro fica mais virado para o continente, e seguindo em frente se encontra ainda muitos lugares lindos, com boa estrutura para receber o turista e tudo o mais. Porém não era este o foco de nossa viagem, e sim o lado mais “selvagem” da Ilha.

Após terminar este rolê, e já tendo andado bastante, partimos para o que tanto esperávamos, o outro lado da Ilha. Caminhar costeando a Ilha é uma tarefa no mínimo ingrata, e de acordo com todos os moradores com quem conversamos, impossível. A trilha que existia antigamente não existe mais, e mesmo assim ela só iria até uma praia próxima a de Antônio Lopes, chamada Santo Antônio. Depois disso, a costa virava um emaranhado de pedras e mata atlântica. simplesmente impenetrável de forma ecológicamente correta. Para visitar estas praias a melhor maneira é desembolsar uma graninha e ir de barco. Para dizer a verdade, o acesso à maioria das praias é feito por trilhas montanhosas pelo interior da Ilha, pois as praias são divididas por esses perigosos rochedos. Bem diferente, por exemplo, do sul da Bahia, aonde é possível caminhar por dias sem tirar o pé da areia. O grande lance é que essa característica do litoral fluminense, torna a caminhada mais cansativa, cheia de sobes e desces, mas nem por isso deixa-a menos bonita! É aliás uma oportunidade maravilhosa de adentrar a mata atlântica, tão mirrada hoje em dia, e ter uma idéia do paraíso que este país era antes da devastação! Posso resumir tudo em uma única palavra; Maravilhoso! Mas ainda assim não é o suficiente…

 Andar pelo interior. Em um só dia fizemos uma caminhada de 16 Km, com todos os nossos equipamentos nas costas, para atravessar o interior da ilha até a praia de Dois Rios e depois até Parnaióca. A caminhada é cansativa e maravilhosa. Ouve-se o canto de vários pássaros, avista-se matas lindas, passa-se por cachoeiras e bicas d´água, sobe-se e desce morros intermináveis e chega-se à praia de Dois Irmãos. esta praia tem o Campus avançado da UERJ (sorte dos pesquisadores…), e é proibido acampar. Deste modo, nadamos um pouco, descansamos, almoçamos e partimos para Parnaióca. Esta parte da trilha é menos acidentada, mas a mata é bem fechada. Quando se chega a Parnaióca, descobre-se que o desafio vale a pena! A partir daí o negócio é descansar. Dá vontade de ficar lá para sempre…

Descobrimos que os nativos todos da região iriam para lá para uma festa da igrejinha local. Apesar de adorarmos festinhas, esta não estava nos nossos planos e estávamos a fim mesmo é de paz. Catamos nossas coisas e nos mandamos para a Praia de Aventureiro. Para chegar lá passamos ainda por um local intocado e apaixonante, as Praias do Leste e do Sul. Por fazerem parte de uma reserva ambiental é expressamente proibido acampar nesta região, que é vigiada por barcos e helicópteros. Para a travessia das Praias sugerimos levar uma boa quantidade de água, pois é muito mais longo do que parece, e a única fonte de água doce é um mangue depois de horas de caminhada. Aliás este mangue é a única passagem para a praia do outro lado, que também é enorme. Ao fim das duas cansativas praias de areia fofa e mar violento, chega-se a Aventureiro. Local realmente agradável, com área de camping e restaurante para recuperarmos as energias. Nosso rolê ainda não terminava por aí e para encurtar a história, depois de alguns dias pegamos um barco para Araçatiba, de onde iríamos pegar a barca de volta para Angra. A Ilha é linda e seu nome não mente, ela é realmente grande. Por isso temos desculpa para voltar e conhecer o que ainda não vimos. Adoro estas desculpas…

Por Parlos Ranna

ILHA GRANDE – 1 DE 2


Férias na faculdade. E melhor ainda, fora da alta temporada!

Partimos de BH eu, Carlos, que vocês já conhecem de outros Blues do Viajante, e meu querido camarada Geléia. Nosso destino era nada mais nada menos do que a linda e maravilhosa Ilha Grande, no Estado do Rio. Preparamos nossas mochilas com todo cuidado e esmero possível, pois tínhamos uma meta audaciosa; andar 80 Km em dez dias no terreno acidentado da ilha, fazendo desta forma boa parte do litoral voltado para o oceano, e mais uma considerável parte do litoral virado para o continente.

Para começar pegamos um ônibus para Angra dos Reis. Nosso ônibus chegaria na cidade de Angra aproximadamente às 6h30 da manhã, e para deixar tudo mais gostoso, foi assim que encontramos nosso primeiro obstáculo a ser superado: A barca de Angra para a Ilha só saía às 15hs. Isso significava que perderíamos o dia inteiro na cidade, quando planejávamos chegar cedo em Ilha Grande e já sair caminhando. A solução era se mandar de Angra para Mangaratiba, de onde sairia uma outra barca, esta, às 8hs da matina. Tínhamos portanto pouquíssimo tempo para chegar lá, e o ônibus não ia direto. Tivemos que parar em outra cidadezinha e de lá pegar um terceiro ônibus para Mangaratiba. Fomos uns dos últimos a comprar as passagens e entramos correndo na barca para não perder a viagem.

Graças a Deus tudo corria bem, como planejado. Íamos sorridentes olhando o continente se afastar, já pensando nos dias maravilhosos que teríamos pela frente. Ao chegar na Ilha porém, me ocorreu algo que me deixou muito assustado e injuriado. Em minha opinião pessoal o ocorrido foi uma afronta aos meus direitos pessoais, e uma total falta de respeito ao turista que chega na Ilha. Me explico no próximo parágrafo, e peço total atenção a ele, pois esta dica pode salvar as férias de muita gente!

Quando a barca aporta na Ilha e os passageiros descem, somos recepcionados por um bando de moradores, turistas e policiais à paisana. Os caras não perdem tempo, e ao ver um cabeludo como eu, pedem-nos para acompanhar-lhes à delegacia. No caminho começam um papo intimidador, do tipo:

– Ô malandro, o negó é o seguin, tamu procurandu por tóxicus. Tú tem aí contigu? – Tenhu não sinhô. – Ó! Nóis vai procurar! Se tivé é milhó falá agora! Se a gente achar tú tá ferrado mermão! Sem medo nenhum retuquei: – Tenho nada não cara! Tô te falando, só vim passar uns dias aqui, fazer um ecoturismo, um trekking. – Intão nóix vão vê!

Daí então, fui levado para um quartinho sinistro, e começaram a revistar meus bolsos, não acharam nada. me mandaram abrir a mochila e tirar tudo que eu tinha dentro. Ao que eu disse:

– Pôxa, minha mala está preparada para dez dias de caminhada! Os pesos estão divididos cuidadosamente, as roupas estão dentro de sacos plástico, vai dar um trabalho tremendo, gente. – Tem probrema não! Tira tudo daí!

 Revista minuciosa

Vocês não acreditam que busca minuciosa! Dificilmente alguém sair de lá sem ser incriminado caso esteja carregado. Tiraram tudo de dentro da minha mochila, abriram todos os sacos plásticos, olharam os bolsos de todas as roupas, procuraram por espaços entre as alças da mochila, e eu lá tranquilo da vida, rindo pra eles. Quanto mais eu sorria e puxava conversa sobre a ilha, mais eles procuravam! Até que desistiram. Perguntaram como é possível um cara com cara de malandro como eu não ter nada. Um deles, o que me escolheu na saída da barca quis recomeçar a busca. Sorte que o mais velho lá se mostrou um pouquinho, mas pouquinho mesmo, mais sensato e me liberou para que eu arrumasse a mala e saísse de lá. Arrumei rapidinho e saí vazado, torcendo para nunca mais ver aqueles manés. Foi ainda um trabalho extra achar meu amigo, que acabou escolhendo um camping qualquer e saiu à minha busca. Mas depois de encontrado, susto superado. AGORA COMEÇAM AS FÉRIAS!

CONTINUA…

Por Parlos Ranna